Foi coisa com que nunca verdadeiramente consegui atinar, a GORJETA. Pelo menos a GORJETA PORTUGUESA. ( Em França, como um pouco por toda a Europa, há tabelas mais ou menos consuetudinárias que, se forem também mais ou menos respeitadas, nos porão a salvo do desprezo dos "chauffeurs" de táxi e dos "grooms"dos hotéis; e no Japão, pura e simplesmente, o orgulho nacional aboliu as gratificações do comércio das cortesias. Mas em Portugal, como por exemplo, também nos EUA, a situação é atrabilária e capaz de gerar os piores embaraços e equívocos!)
Os problemas, em Portugal, começam logo em saber se, e quando, se deve dar GORJETA. Ao patrão, não se dá GORJETA (vá-se lá saber porquê!). Mas como descobrir se o barbeiro, ou o taxista, são, ou não são, donos do negócio? Depois, as perplexidades vêm por aí abaixo em catadupa. Que gorjeta dar? E como? Deixá-la cair ruidosamente na bandeja ou metê-la no bolso do colete do empregado? "Esquecer-se" de algumas moedas (mas quantas, meu Deus?) em cima da mesa? Dizer ao mecânico que nos acabou de afinar o "ralenti": tome lá para uma cerveja? (E se ele é abstémio?). Meter uma nota (mas uma nota de quanto?) num envelope e deixá-lo numa mesinha de cabeceira do hotel endereçado à "Exmª Mulher de Limpeza"? Perguntar ao arrumador de automóveis: quanto é? E quando se não tem dinheiro trocado, quando, por exemplo, só se tem uma nota de cinco contos no bolso?Deverá dizer-se ao arrumador: tem troco de cinco contos? E, depois, dar-lhe cinquenta paus? E se ele, o que é o mais certo, não tiver troco?Não ficaremos com cara de quem utilizou um expediente miserável para fugir com o rabo à seringa? E se, no restaurante, a conta é do género 2490.00? Deixámos só os 10.00 do resto e fazemos figura de pelintra? Ou prescindimos generosamente dos 510.00 do troco e fazemos figura de parvo?
É uma arte subtilíssima, que tem que se praticar com justa medida e justa discrição, a GORJETA. E o praticante desajeitado (como é o caso do cronista) vive permanentemente entre Cila e Caribes, que é como quem diz entre a figura de parvo e a figura de pelintra, se quiser passar desapercebido entre os seus concidadãos. O menos que lhe pode acontecer, ao desajeitado e minimamente agradecido cidadão que pretenda não passar à pequena história da má língua dos empregados de mesa, encostados ao balcão, nos longos momentos mortos, é começar a ser tratado como cliente de segunda. O pior é ir parar à cadeia. Com efeito, a alguns funcionários (não todos) de algumas (não todas) repartições públicas, ao polícia que fecha os olhos a um estacionamento proibido ou a uma manobra perigosa, ao professor que, apesar de tudo, passou o miúdo de ano, ao juíz que foi complacente e suspendeu a pena, não convém (parece) dar gratificação; ficar-lhes agradecido, e dar expressão económica ( principalmente se não for suficientemente generosa para compensar presumíveis escrúpulos) a tal agradecimento, pode ser um crime e sair caro. Tudo por que se afiguraria mais do que justo que toda esta complexa matéria fizesse parte dos currículos escolares dos portugueses. Sempre haveria de ser mais útil aos instruendos, na vida quotidiana, do que outras aprendizagens que, depois, se anda o resto dos anos a tentar esquecer ...
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