terça-feira, 23 de junho de 2009

FICA-TE, MUNDO, CADA VEZ PIOR

M.DOS SANTOS escreveu,no JN,em 1991, em falar de palavras,que há anos atrás,teria tido acesso a parte do "THESAURUS PAUPERUM" (Tesouro dos pobres),cuja autoria é atribuida a Pedro Julião - ou Petrus Hispanus ou Pedro Hispano Portugalense) que veio a ser o único Papa português, até agora, com o nome de João XXI.Nasceu em Lisboa, entre 1205 e 1210 (não é que o parto fosse assim demorado), a data é que oscila entre esses dois anos, e faleceu em Viterbo em 1270.Notabilizou-se como filósofo e como médico. No referido "Thesaurus Pauperum" apresenta o elenco dos tratamentos recomendados para as doenças das diversas partes do corpo humano, obra que teve quase um cento de edições e foi traduzida para uma dezena de línguas. Foi considerado o homem mais douto do seu tempo.Pois, nessa obra encontrei receitas que foram usadas durante muitos séculos e que deveriam ter tido resultados espectaculares - para diversas maleitas.
De entre as que interessam ao assunto, reproduzo algumas: " no terceiro nó (ou vértebra) da espinha do cinco, há uma pedra que, se for bebida ou comida por um galo, imediatamente subirá para cima da galinha, e, se um homem a comer ou beber, ficará desmedidamente libidinoso, de tal modo que, não poderá guardar continência". (Desde já devo desiludir os interessados por estes assuntos: este CINCO é um sáurio (lagarto) de corpo fusiforme, bastante pesado, de cor arruivada ou amarelada, com listas escuras, que vive nos lugares arenosos da Arábia ou do Sara: o corpo seco e pulverizado do cinco passava outrora por afrodisíaco).
Ora sabendo nós que os homens não pensam noutra coisa ( e quando pensam, não pensam em coisa boa, até porque melhor não há...), sabendo nós que o desgraçado do rinoceronte está em vias de extinção porque entre certos povos corre a crença de que o seu corno (dele), reduzido a pó, é estimulante sexual; não se espantem os leitores, nem as leitoras que, do tal cinco ou já não reste um exemplar para amostra ou estejam confinados a locais inacessíveis aos caçadores de tais preciosidades.Tão desconhecido é o bicho, que, em quatro dicionários onde se procurou a palavra, não se encontrou. A ciência acima exibida - foi colhida no Lello Universal.
Mais receitas: "Comer testículos de raposo excita muito";"beber testículos de texugo com água, durante três dias, dá um apetite indefectível";" trazer a pedra que se encontra do lado direito da salpuga provoca uma grande erecção".
(Fiquei sem saber que bicho é este, a tal salpuga.Seria uma serpente).
"Faça-se uma fumigação com um dente moído, de um morto".
Mas o famoso ( e pelos vistos eficiente ... pois se foi traduzido em dez línguas e teve quase cem edições e foi - proveitosamente ... para doentes e cangalheiros ... - consultado ainda quinhentos anos depois de ter sido escrito ...) livro "Thesaurus Pauperum" inclui outras receitas de grande importância, de alta utilidade e de vastas oportunidades de emprego:
"Testículo de galo com sangue do mesmo, postos por baixo da cama, proibem o coito a quem nela está deitado".
"Quando a mulher não quiser conceber (...) coma osso de coração de veado e não conceberá"."Disse-me certa mulher experiente que, molestada pela frequência dos partos, comeu uma abelha e não mais concebeu"- Aplique a mulher a si mesma tentáculos de lesma e não conceberá; pois têm a virtude de impedir a concepção. Se a mulher trouxer consigo excrementos de elefante, não conceberá". (Permito-me arriscar a opinião de que esta receita é de resultados garantidos).
"Beba o homem e a mulher a espuma que a lebre tem à volta da boca, quando está a roer a erva
e conceberá". "Coágulo de lebre e excrementos destas, em partes iguais; diluam-se com mel e ponham-se num pessário três dias e três noites, e em cada dia beba a mulher raspas de marfim, pois até a estéril conceberá". "Beber urina de elefante é admirável para a concepção".(Não ponho,evidentemente,em dúvida a eficácia desta mezinha.Mas palpita-me que se apenas se contasse com este remédio para conseguir engravidar,já há uns bons duzentos anos que não havia gente no mundo...Humanidade já há pouca, é bem certo...)." Dilua-se em água um ninho de andorinha, coe-se e beba-se, torna o parto fácil".
Também havia receitas para efeitos contrários, a aplicar a gente a quem se quisesse o pior deste mundo: "Unta-se uma correia com suco de urgebão e use-se junto da carne, ficar-se-á efeminado; e, se se tocar em alguém, essa pessoa ficará inepta para o serviço de vénus, pois que amolece o coração de quem lhe toca".
E havia ainda mezinhas para ecantar e mezinhas para quebrar o encanto: "Se alguém for enfeitiçado para amar demasiado algum homem ou mulher, ponham-se pela manhã fezes recentes da pessoa amada na sola direita do pé do amante e calce-se: logo que sentir o fedor desaparecerá o malefício".Trazer a pedra que se chama iman apazigua por completo a discórdia entre o marido e a mulher".Ponha-se mercúrio numa cana ou avelâ furada e meta-se por baixo do travesseiro dos enfeitiçados, ou ponha-se no limiar da porta, por onde se entra; anula o feitiço".
Ora, tudo isto vinha a propósito de Ana Bolena e dos recursos a que ela terá lançado mão para dar a volta à cabeça do Henrique VIII e, posterormente,para se haver com toda a galhardia com a fogosidade de quatro amantes.
(A acusação de adultério não fez as coisas por menos).
Se já a infeliz Inês de Castro, tão cantada por poetas, outros literatos e alguns fala-baratos,não ficou assim muito bem vista pelo povinho, que lhe deformou o nome em "Inês do Carasto" e dele se serviu para insultar mulheres de mau porte,semelhante sina triste perseguiu a pobre da Ana Bolena.(Que, diga-se, até ao fim negou o adultério de que era acusada, sendo, no entanto, unaninemente considerada culpada por um conselho de vinte e tal pares, dos quais fazia parte o pai dela...Mas também podemos em qual o valor dessa unanimidade toda; quando sobre a cabeça de cada votante pesava a ameaça de um déspota sanguinário mandar calar com um cutelo as vozes discordantes:A lâmina não era esquisita e qualquer pescoço lhe servia...)
Trancrevo do Dicionário de Mulheres Célebres, da Lello (já bem precisadinho de actualização, a minha edição já deve ter mais de vinte anos,mal ia ao mundo se desde a última não tinham surgido mulheres dignas de registo - e de outras homenagens);
O nome de Ana Bolena passou à posteridade, deformado levianamente pela tradição popular, a qual vê nela a personificação da mulher infiel, devassa e sem escrúpulos.O visconde Júlio de Castilho, comparando Inês de Castro com Ana Bolena, no seu drama D.Inês de Castro refere-se-lhe, comentando: "... o nosso povo em sua fantasia, engendrou uma entidade, misto de mulher e de serpente, a temível Ana Bolena, o eterno tipo de todas as mulherinhas viperinas e embusteiras".
E no Lello Universal encontro" Ana Bolena, como brasileirismo e provincianismo algarvio, a significar "mulher intrigante, enredadeira, caluniadora".
Neste texto me inspirei para escrever Afrodisíacos.

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